2008/09/03

O INDIVIDUALISTA

(Preâmbulo de um livro por escrever)






















De algo existente partirá sempre o verbo. O longínquo começo do verbo, inidentificável seguramente será, faz-me imaginar um retrocesso radical e absoluto à origem das coisas, à origem de tudo, demanda um pouco pateta que conduz à aceitação da vaga ideia de verbo absoluto e original hipoteticamente contido no espírito que povoaria a matéria do espaço-tempo inicial. Matéria, espaço, tempo e espírito seriam indiscerníveis – se então possível fosse discernir – formariam um todo estático, o número 1. Não é muito diferente imaginar o início da congregação da matéria em cada ser humano que nasce, o início do verbo no indivíduo, mas neste caso aceita-se que haja um fluxo para as coisas que existem, que os homens provêm das misteriosas junções de matéria em eterno trânsito e que o verbo provém da imitação dos seus semelhantes, do mundo de outrora, para chegar a eles, entendê-los e, ancorados nesse entendimento e em cada momento, os indivíduos constituírem-se construindo-se. Nesta analogia universo – indivíduo, se 1 representasse o absoluto inicial, representaria o presente, traduzindo o sentido da multiplicidade infinita da existência material, temporal, espacial e espiritual que serve a acção dos homens.
Ao construir-se, o indivíduo constitui-se e, apesar de em cada momento ser possível por aproximação descrever o seu estado de constituição, aquilo que o caracteriza, nunca o indivíduo é definitivo, condição que prevalece desde que nasce até ao momento em que morre e deixa de ser. É da natureza humana existir na permanência do estado transitório do corpo e da psique. Não é concebível a afirmação da existência de pensamento ignorando o tempo e, consequentemente, o perene estado de mudança, simultaneamente cimento das ideias e alavanca primária do entendimento. O pensamento do indivíduo existe em constante oscilação reactiva a estímulos externos. Hesitação e temor da escolha paralisam por vezes a sua acção pois o percurso que se sente obrigado a trilhar, a ideia dessa obrigação como fantasma prospectivo do destino, pode vir a revelar-se inconveniente e inconsequente perante a preconcepção que faz do futuro.
Quando é sobretudo num mundo seu que o indivíduo age e solta o verbo, agindo para que o seu mundo tenda a manifestar-se a seus olhos, se nem sempre com beleza, pelo menos com esboçada estrutura estética e poesia, diz-se dele, no seu peculiar modo de estar, na sua atitude distintiva, que é artista. No entanto, da maioria dos seus gestos nada de relevante resulta. Multiplicando-se muitas vezes em vão, gestos e palavras espelham pensamento turvo e falsas intuições, isto é, embora possa manifestar-se em si plena de vigor, transbordante de energia, a acção origina sementes estéreis, objectos inconsequentes, enfim, lixo artístico que, dada a natureza “fetichista” da obra de arte, adquire por vezes um estranho valor intelectual, monetário e também artístico. A disponibilidade e a maturidade do artista são os factores cuja combinação ou é destrutiva, ou possibilita aos objectos resultantes da sua acção existirem como obras de arte. Quando a maturidade avança mais rápida que a sua disponibilidade para fazer arte, impondo a cada vez renovados padrões de exigência, o artista rejeita a obra antes de a completar. Na falta de discernimento para a rejeição, o mais provável é que da acção resultem obras frágeis.
Para além das relações tensas, equilíbrios e desequilíbrios entre disponibilidade e maturidade, é balançando entre o individualismo e a oportunidade que o artista por vezes falha – embora o individualismo seja o selo que valida o que ele é, ou que vai sendo, são a oportunidade externa às vicissitudes do indivíduo e a sua ausência que condicionam a escala e a pertinência da sua acção. Não é que o individualismo constitua uma alternativa oposta à actividade artística de grupo em plena comunhão social ou irmandade espiritual. Em arte, o individualismo não é, evidentemente, uma reacção ao estado das coisas; é, isso sim, consequência inevitável do decurso da vida como criador. A inquietação que a criação artística acarreta é sempre motivada por razões profundamente pessoais que embora possam derivar de e para interpretações que vão além da individualidade, são únicas e pertença daquele específico ser humano. Na actividade artística de grupo o contributo de cada indivíduo é, de algum modo e mesmo que no restrito respeito de directivas programáticas externas, reflexo individual que sempre se manifesta no seu modo de fazer. A obra de arte é, em parte, representação radical do próprio artista, não necessariamente em modo figurado de retrato ou auto-retrato, mas como se resultasse também de uma emanação que impregnasse a matéria que a constitui e define, do “ser do sujeito artista”, como uma fotografia idiossincrática do indivíduo que a criou (a ideia de obra criada sempre à imagem do seu criador). Esta característica é indissociável da obra de arte relevante, mesmo quando é da convicção do autor não deixar a sua mão visível na obra, atitude adoptada e defendida por vários movimentos e artistas plásticos durante os séculos XX e XXI.
Como ideia, a arte diz do tempo do criador e do tempo que molda a interpretação do mundo e cada indivíduo. Mesmo que o artista adie o verbo, a arte, que vacile, sempre se movimenta à superfície de cada uma das disciplinas artísticas que o extasiam. Durante anos ciranda ideias dispersas, vê fogos-fátuos, adia a obra colossal que lhe faz visitas breves, inquietando-o e excitando-lhe o intelecto. Alcança num vislumbre a sua totalidade, imagina os gestos largos, os pensamentos latos que se consubstanciariam na ideia emergente de obra, evidente na sua excelência. Esta aparição de obra magnífica, esta maravilha, rapidamente se torna refém e vítima da dúvida, do tempo, dos outros, e antes de se evidenciar como o colosso arrebatador e incontestável que o artista intuiu, capitula amiúde perante aquelas influências. A impressão de velocidade, esgotamento de recursos e efemeridade que o mundo actual reserva ao artista, agudiza ainda mais estas circunstâncias. À maturidade e à disponibilidade associam-se acção e influência externas e todas juntas formam a combinação de elementos que destrói ou impossibilita a conclusão – por vezes mesmo o início da exteriorização da sua existência no íntimo do artista – dessas hipóteses de obra. A maturidade caminha muitas vezes mais rápida que disponibilidade e oportunidade para fazer, impondo outros padrões de exigência estética e técnica, veiculando a inesgotável dúvida perante os padrões de exigência técnica e estética dos outros, imagine-os o artista superiores ou inferiores aos seus. Mesmo que os aborde apenas sob a perspectiva da diferença de carácter, com o tempo acaba inevitavelmente por os classificar por níveis de valor, não pela perseguição da glória pessoal (ser o melhor) mas porque é da natureza da arte ultrapassar-se reinventando-se em corpo e manifesto dentro de uma lógica de confronto entre continuidade e ruptura (o que não pressupõe necessariamente termos como progresso ou evolução). Só desse modo é possível ao artista interiorizar uma cronologia da arte com ênfase nas suas lógicas estéticas internas e não apenas no fenómeno histórico, sociológico e político.
Os diversos agentes da arte (artistas, críticos, mecenas, comerciantes e público) definem, num jogo de equilíbrios e desequilíbrios bastante complexo que envolve diversos factores que são, uns do interior das lógicas da arte, outros (que constituem a maioria) a elas exteriores, os diversos padrões de gosto que tornam as criações dos artistas aceitáveis, ou não, como ideia de arte “defensável” por um grupo de interesses. Das variações das interacções entre forma, conteúdo e método de elaboração se estabelecem os diversos padrões de gosto presentes nas diversas épocas e que espelham de modo mais ou menos directo a influência, por vezes tirania, dos grupos de interesse dominantes. O artista conhecedor das mais actuais tendências da arte deveria evitar mimá-las, evitar ser mais um de muitos. No tempo em que vivemos, com a fácil comunicação à escala global, esta acepção é ainda mais pertinente mas também muito mais complexa a sua persecução. Durante o século XX houve a tendência para que deixasse de ser considerado inovador o artista que inovava dentro de um sistema criativo existente, isto é, que se movia no conjunto de regras que definia uma “tradição” de fazer. O artista inovador passou a ser considerado aquele que inventava o seu sistema, ou seja, aquele que criava os próprios axiomas artísticos, deixando as regras de ser imposição externa para passarem a ser do interior de cada obra. Esta tendência tornou-se cada vez mais complexa e resultou na incrível disparidade de formas, estilos e conteúdos existentes na arte actual. Por um lado, assistimos a uma especulação formal prolífera que, há que referi-lo, é extremamente criativa e recebe aplausos fáceis, mas que se revela quase sempre desprovida de conteúdo. Por outro, presenciamos conteúdos aceites como “nobres”, mas cuja representação formal se nos apresenta gasta, por vezes enfadonha no seu disfarce de coerente e séria por insistir até à exaustão nos esquemas repetitivos e viciados de certa arte dita “conceptual”.
O artista actual é “mais artista” na sua permanente crise de criação face à contemporaneidade do que ao condescender na repetição de esquemas, vícios, lugares-comuns e, sobretudo, verdades alheias. As angústias criativas residem no dosear da vontade de fazer arte em face da disponibilidade e desperdício de tempo para definir e desenvolver a consciência de si, para que o seu ser se torne ou se descubra suficientemente forte para suplantar a vertigem do confronto com a contemporaneidade, instaurando novos padrões estéticos, para ir além dos padrões do gosto presente e dominante, ou seja, instaurando novas realidades artísticas efectivas. Assim sendo, a imersão na arte reserva muitas vezes ao artista o isolamento e a incompreensão, o fracasso público e pessoal. Ao artista resta hoje, e talvez sempre, ser obscuro, mergulhar profundamente em si, abraçar o individualismo como descoberta de um bem-estar irmão dos mistérios do seu universo. Impregnando-se de si deve evitar o maneirismo desenraizado. Ao isolar-se no seu individualismo, ao afundar-se, a pouco e pouco, na arte, o artista afasta-se dos grupos de interesse que definem os padrões de gosto que lhe podem trazer visibilidade no “mundo da arte”. Conclusão óbvia mas que atesta bem o dilema que atormenta o individualista – tornar-se invisível para chegar à arte mas necessitar de ser visível para fechar o ciclo criativo, divulgar a obra para que seja apreciada, vivida, depois de ter sido pensada, criada, executada (não necessariamente por esta ordem).
A arte só se manifesta verdadeiramente quando o sujeito que dela frui compreende que aquela experiência estética em concreto fez despertar uma profunda consciência da sua própria condição existencial; assim se fecha o ciclo criativo da arte, na acção do espectador. Num exercício mental de individualismo extremo, o artista restringiria a existência da obra de arte ao seu universo pessoal e seria de questionar se a tal objecto poderíamos chamar arte, isto é, se esta se manifesta no universo composto apenas por obra e criador. Pode-se afirmar sem grandes constrangimentos que o criador também é um sujeito que usufrui da obra de arte de sua autoria, inaugurando mesmo perante a obra a experiência de profunda consciência da própria condição existencial. Se assim não fosse com certeza não exerceria aquela actividade. O artista inclusive detecta, ou testa, através desta experiência inaugural a validade artística dos objectos por si criados recorrendo, mesmo que inconscientemente, à simulação da experiência de “fora de si”, porque para obter a experiência da sua própria condição existencial seria suficiente o processo formativo da obra (que, por si só, não a valida como arte). É no simular, imaginar, a experiência do outro perante a obra que criou, evitando reviver a experiência do processo formativo, que reside a prova do artista à validade da obra como arte. Mas o esforço de imaginar-se outro é duplamente patético dado que, por um lado, o artista está tão fortemente ligado aos objectos que cria que dificilmente conseguirá com eficácia ignorar o estado poético em que se envolveu ao fazer a obra e, por outro, nunca o espectador da obra sai de si (no sentido de ser outro e não no de atingir a transcendência) para dela usufruir. A obra só existe como arte na medida em que interpela o espectador, colidindo alguns aspectos da obra, positiva ou negativamente, com as características da sua personalidade e individualidade. Esquecer o decorrer dos actos formativos para, em certa medida, os reconhecer e reconstituir a posteriori, chegando finalmente à prova do artistismo, ou falta dele, parece tarefa impossível e residirá talvez aqui a célebre dificuldade dos artistas na avaliação e selecção das obras de sua autoria. Não diria, por isso, que a arte não existe no restrito universo artista + obra própria, mas diria contudo que sem público se tratará de obra de arte “órfã”, no sentido em que a paternidade/maternidade da obra cumprem ao artista (estado embrionário) e ao público (nascimento perante os sentidos na sua assunção artística).
Ao ver os seus objectos artísticos concluídos fisicamente, o artista vê os conceitos, isto é, a lógica ou a razão aplicadas às intuições poéticas, tornarem-se frágeis, por vezes mesmo ridículos face às razões que imagina do(s) público(s) e todo o preenchimento que antes foram fica tomado pelo imenso e grotesco vazio que volta a instaurar a dúvida. Para o artista a razão de ser da existência na arte é esta busca cega e surda, o absurdo do arterial fluxo de ideias e a sua representação fugidia, sempre condenada à incerteza, ao nada.
Estilo, efeito, conteúdo, forma – ainda e sempre a perseguição desta espécie de belo? A obra de arte genuína com certeza rejeitará o estilo e o efeito como apriorismos impostos à forma e ao conteúdo, orgulhosa, rejeita-os como acessórios para a tornarem aceitável. De trato rude, não condescende e é por isso difícil de detectar e reconhecer, se é que o confronto do sujeito com a grande arte se trata de reconhecimento – não se tratará antes de conhecimento? Assistimos hoje ao auge apoteótico do estilo e do efeito, tudo no “mundo da arte” é apelo à atitude maneirista. O uso abusivo de obras de arte em contextos variados como a publicidade, a televisão e muito cinema comercial, contamina-as miseravelmente e, parecendo que as divulga, apenas as rotula superficialmente, transformando-as, no imaginário colectivo, em meras mnemónicas de universos que lhes são alheios. O modo de fazer arte dos artistas, as suas próprias obras, já reflectem esta contaminação. Artistas há que assumem que as suas obras são evocações de reproduções de reproduções, nem sempre à arte referentes. Um certo discurso sobre as artes faz erradamente a equivalência desta espécie de mnemónica ao carácter icónico da obra de arte. Em arte, ícone deveria ser o objecto real que, simultaneamente na pertença ao universo de que é emanação e na dotação de extrema capacidade de síntese, representasse visualmente realidades profundas, muito ricas e complexas, aproximando-se mais do ícone religioso e afastando-se do grafismo da sinalética. A banalização e simplificação da ideia de ícone, resultante da incompreensão do seu verdadeiro poder simbólico e complexidade, tornou-se actualmente em paradigma mercantil, mesmo em disciplinas como a arquitectura e a música.
Com a banalização da sua divulgação e a contaminação atrás identificada, a arte tem perdido a capacidade de, como sistema, se igualar à natureza. A grande arte é real, ao passo que a realidade da arte menor é ser representação do real. Por isso, a arte menor não só se limita a representar a realidade natural e artificial, como imita também as realidades paralelas propostas pela grande arte. A grande arte nunca foi cópia ou representação da natureza e do artifício e sempre se insinuou, consciente ou inconsciente dessa sua condição e na parecença à natureza e ao artifício, como sistema autónomo, como “mundo em si”. A tendência para a radicalização do individualismo é, no artista, o seu combate interior contra a prevalência do óbvio na arte actual.
A visão que um outsider tem do mercado global e nacional da arte, por injusta e pouco fundamentada que possa ser, é a de uma excessiva oferta dita “cultural”, um louco frenesim que, pelo seu gigantismo, tudo reduz à ligeireza. Falta tempo para aprofundar o pensamento em tantas e tão díspares obras. Aparentemente, neste ambiente hiperbólico e ultra-caótico (de que a world wide web constitui o paradigma porque raramente apresenta obras de arte mas antes a sua pálida reprodução) triunfa o artista de obra rápida e tautológica, características às quais estranhamente muitos associam a conjugação dos termos “coerência artística”. De tanto se repetir nas escolas de artes que o portfolio de um artista visual se deve organizar de determinada forma, criou-se nisso uma fé inabalável e essa regra, por ser da maioria, ganhou trejeitos de inquestionável. Atingimos o espantoso absurdo da tirania do portfolio, isto é, a vontade de ter sucesso a fazer arte leva os artistas à elaboração de obras que “rimam” umas com as outras, aprisionadas ao estilo ainda antes da sua génese, vergam-se à coerência da regra de marketing, perdendo a sua razão de ser que deveria ser, em primeira e última instância, ser arte. O mercado da arte trata-a, obviamente, como mercadoria e para entrar em qualquer jogo deve obedecer-se a determinadas regras. Pede-se clareza e eficácia – auto-catalogação das obras de um mesmo artista que se restringem, de preferência, à constante auto-citação e semelhança para, claro está, atingir as expectativas e o protectorado dos detentores do poder de decisão quanto ao que vende e constitui lucro. As obras de qualquer artista tornam-se, desse modo, reconhecíveis, o que facilita o lucro através do comércio de originais que, no fundo, não passam de réplicas de peças com características de sucesso, cuja produção se repete, de preferência, até ao esgotamento.
O que se torna ridículo em obras cuja concepção é exclusivamente auto-referencial é a instantaneidade da queda no lugar-comum, o eco. Trata-se de uma tautologia muda porque neste jogo sem sentido a obra adquire razão de ser na leitura de si mesma a reformar-se ou, descrição talvez mais correcta, na reprodução da previsão do que pode vir a ser reproduzido. Sobre a sua génese e o seu finalmente “ser-como-obra” paira sempre a sombra da fraude.
Sublinhe-se de novo a oposição da obra que aspira a ser conhecimento, à obra que aspira a ser “reconhecimento”; da arte que é real, à que imita a realidade natural e realidade paralela proposta pela grande arte; da que inova porque pulsa viva, à que perpetua na ânsia de agradar. A primeira não dá relevância fundamental ao tempo de resposta do espectador, tende a ser de fruição lenta; a segunda busca a apreensão estética imediata e rapidamente se torna irrelevante a um nível mais profundo. O criador atento à falsidade do apelo encantatório do segundo tipo de obra, que de resto considera repulsiva, cultiva o individualismo para dela se afastar, fazendo fé na aproximação à grande arte, a única que colide com a sua particular sensibilidade.
Duas ideias de artista, opostas, estão assim em permanente confronto na arena da arte e na mente do artista: uma, a do artista que produz obras; outra, a do artista que cria obras de arte. O primeiro, pragmático, encaixa-se com à-vontade nas expectativas externas quanto ao que deve ser a obra de arte; o segundo, desinteressado das frivolidades, vive obcecado com a edificação do seu mundo.

Lisboa / Ponte de Sor, 2007 / 2008

ilustração: desenho de Nuno de Matos Duarte "Sem Título" (2004) , tinta-da-china sobre papel

2007/12/17

FOTOGRAFIA DIGITAL – TÉCNICAS AVANÇADAS DE PHOTOSHOP CS2




















Como em arte teoria e técnica devem andar a par, decidi disponibilizar gratuitamente um e-book no qual trabalhei durante 2006. Este e-book reflecte parte da minha própria aprendizagem no campo da técnica fotográfica e resulta essencialmente da recolha, filtragem e, por vezes, correcção de artigos e dicas dispersos por sites na Internet e ainda de algumas técnicas desenvolvidas por mim próprio. Apresenta diversas fases sequenciais de trabalho, à imagem de um manual de instruções “passo-a-passo”, introduzindo algumas notas que explicam os conceitos em uso. Alguns dos termos, nomeadamente aqueles que estão directamente relacionados com as técnicas fotográficas analógicas, não são definidos porque partiu-se do princípio que o leitor já está com eles familiarizado. Outros, por se tratarem de conceitos que surgem com o advento da fotografia digital, remetem-se para um Glossário no final do livro. O conteúdo do e-book poderá interessar a fotógrafos amadores e profissionais e a artistas-fotógrafos. Propõe um método para estabelecer ou organizar o tratamento digital de fotografias em Photoshop CS2. O encadeamento de técnicas proposto visa sobretudo a obtenção de óptimos resultados em impressoras de jacto de tinta, dado que esta técnica alia custos baixos à excelência da qualidade das imagens impressas. No entanto, não exclui outras técnicas de impressão. Para além destes dois aspectos, a impressora de jacto de tinta permite ao fotógrafo / artista exigente o domínio completo de todo o processo de elaboração da obra.

A recente comercialização do Adobe Photoshop CS3 introduziu alterações significativas no plugin Camera Raw, dotando-o de novas e muito úteis funcionalidades, com impacto nos processos de tratamento de imagens em formato RAW, mas também JPEG e TIFF. No entanto, este e-book continua a ser muito válido para quem deseja iniciar-se ou aprofundar conhecimentos sobre tratamento digital de fotografia.

Uma nota final: se pensa que o tratamento digital de fotografia tem a ver com a aplicação de efeitos fáceis mais ou menos espectaculares e rocambolescos, accionados por botões milagrosos, talvez seja melhor debruçar-se sobre outras leituras que não a que proponho.


FAZER DOWNLOAD EM:

http://www.edocr.com/doc/408/fotografia-digital-t-cnicas-avan-adas-de-photoshop-cs2

2007/05/01

Imaginário do Artista - 10 - Cabeça de Medusa





















Michelangelo Merisi, detto il Caravaggio
“Cabeça de Medusa”
60x55cm
Galleria degli Uffizi, Florença


A LENDA:
Das três temíveis Górgonas, irmãs filhas das divindades marinhas Fórcis e Ceto, duas eram imortais, Eusteno e Euríale. A terceira, Medusa, era mortal. Outrora tinha sido belíssima e particularmente belos teriam sido os seus cabelos que tanto atraíam os olhares. O esplendor da sua figura seduziu Poseidon que a violou no templo de Minerva. A profanação do templo levou Atena a punir Medusa, transformando os seus belos cabelos num emaranhado de serpentes vivas e amaldiçoando o seu olhar com o poder da morte pela petrificação. Medusa tornou-se evocação de medo, de horror, da implacabilidade da morte.
Perseu era filho de Zeus e Danae. O Rei de Acrisius, pai de Danae, temendo a profecia que anunciava a sua morte às mãos do neto, abandonou Perseu e sua mãe no mar. Os dois vaguearam até serem finalmente recolhidos pelo Rei de Serifo, Polidectes, que acabou mais tarde por se apaixonar por Danae. Incapaz de se aproximar dela porque Perseu era irredutível na protecção à mãe, Polidectes decidiu livrar-se do filho da amada, incumbindo-o de uma impossível demanda – decapitar Medusa e trazer a sua cabeça. Escondido por detrás de um escudo espelhado e munido de outros objectos mágicos, Perseu protegeu-se do olhar terrífico e mortal ao mesmo tempo que o devolvia em reflexo a Medusa, decapitando-a no exacto momento em que ela contemplou o horror da sua própria figura, o horror da sua própria morte.
Face à lenda, Medusa representa o absolutamente inacessível, dado não ser possível vê-la sem morrer. Encarar Medusa seria ver a própria morte e morrer nesse exacto instante, quando o próprio corpo se fixa eternizando o seu esgar de espanto e horror em pedra, para sempre.

A OBRA:
A “Cabeça de Medusa” de Michelangelo Merisi detto il Caravaggio, transporta a representação escultural e pictórica de cenas mitológicas (ou bíblicas) a um plano nada comum. A composição da obra é económica, clara, reduzindo formalmente o instante decisivo da narrativa aos elementos estritamente necessários. Inquietante e muito densa nos recursos artísticos e no jogo psicológico que propõe, “Cabeça de Medusa” não é apenas uma pintura, mas também um objecto, o objecto chave para o qual todos os acontecimentos narrados pela lenda confluem, o objecto chave que soluciona a trama e a faz explodir de significado: a obra é o escudo espelhado, côncavo, no qual Medusa vê a sua própria imagem; é arte directa, despida de adereços, adornos, anexos e redundâncias. A obra é o escudo espelhado a reflectir Medusa observando a própria morte no exacto instante da sua ocorrência. O que ela vê é o próprio olhar horrorizado ao contemplar-se a si mesma, ao ver-se petrificar. Vê, tal como nós, o seu estertor de morte; vê, tal como nós, a sua cabeça solta esguichando sangue ao golpe da espada de Perseu. A imagem da própria cabeça é a imagem cristalizada do momento da própria morte na superfície côncava do escudo (é, à sua maneira, uma fotografia com tudo o que de morte a fotografia encerra, pois capta um momento único e irrepetível no espaço e no tempo). Mas a genialidade do jogo psicológico deste objecto-pintura reside num factor ainda mais perturbante – a representação do reflexo de Medusa no escudo é um auto-retrato de Caravaggio travestido de Medusa. A representação que o artista nos dá a ver de si próprio é a representação máxima do horror, da definitiva e absoluta vertigem do momento da morte. Representou no espelho, no escudo côncavo de Perseu, a imagem que viu de si no espelho real imaginando-se a morrer como Medusa. Esta obra é, por isso, um duplo espelho, real e mitológico. Esta duplicidade atravessa aliás toda a obra do artista que sempre usou para as suas composições pictóricas pessoas comuns, o “homem da rua” como modelo das personagens bíblicas e mitológicas. E olhando os seus quadros nunca as personagens nos surgem como figuras idealizadas e perfeitas, surgindo-nos antes como as pessoas comuns que foram, sob uma representação de luz também ela realista, modelada por uma pincelada próxima da absoluta perfeição técnica. Não é inédita em Caravaggio a auto-representação como decapitado. Em “David com a Cabeça de Golias” o jovem David agarra pelos cabelos a cabeça solta do corpo de um Golias cujas feições são as do próprio Caravaggio. David exibe-a, não com uma expressão triunfal ou de raiva, mas manifestando alguma compaixão pelo degolado. Alguns vêem nestas auto representações de Caravaggio manifestação de amargura derivada das atribulações de uma vida errante, canalha, que conheceu de perto o horror da morte, da dor e do confronto físico violento. Pela minha parte, acrescento a essa leitura outra lição importante que constitui um legado artístico não menos trágico: a representação de espelho que o auto-retrato do artista é, será sempre também uma representação do próprio artista a ver como os outros o verão após a sua morte.

2007/04/04

Imaginário do Artista - 9 - A Música de Anton Webern



















Aparentemente, a imaterialidade da música conferir-lhe-ia imunidade à velatura do tempo. Só que ao lidar com arte lidamos com pensamento e a existência de gentes e épocas posteriores ao tempo de gestação das ideias musicais impede-as de escapar à mutabilidade externa que lhes altera os significados. A música de Anton Webern passou obscura pelo tempo de vida do compositor e ainda hoje é música apreciada fundamentalmente pelo restrito círculo de músicos e compositores especializados na chamada “música contemporânea”. Não raras vezes li ou ouvi intelectuais referirem-se à música de Schönberg e Webern (e à composição musical posterior que acolheu a sua influência) como música para especialistas, ou música que requer uma iniciação que ensine o ouvinte a apreciá-la.
Interessei-me por Webern partindo do conhecimento de Schönberg, o que parecerá lógico, mas contrariando o que também parece lógico quando se fala de iniciação em música erudita, como ouvinte não cheguei a Schönberg através de Wagner, Mahler, Zemlinsky ou através de outro compositor anterior. O meu entusiasmo pelos compositores barrocos, clássicos e românticos chegou depois de muito ouvir Stravinsky, Schönberg, Webern, Cage, Berio, Nono, Donatoni, Ligeti e Messiaen. Foram portanto estes compositores que me iniciaram na música erudita anterior ao século XX (ou na música erudita em geral) e não o contrário. Havia na música de Schönberg algo que me inspirava e comovia de um modo que a música anterior ao século XX não conseguia (pelo menos daquele modo) e penso que o encantamento que me fez começar a ouvi-la com regularidade residia no facto de nela intuir a ideia de que a liberdade na criação artística não tem limites e que era possível alcançar e passear a mente pelo mais estranho e caótico dos mundos. É evidente que essa minha percepção se devia à invenção de uma técnica de composição que deu corpo a um “manifesto” – Schönberg decidiu que na sua música todas as notas da escala cromática teriam a mesma importância, rejeitando a ideia de dominante e, consequentemente, a tonalidade. Naquelas composições via eu residir, portanto, a rejeição de todos os sentimentos de homens e mulheres que estava habituado a associar a determinadas tonalidades ou modos, fosse ao ouvir música erudita ou popular. A música, para mim, expandiu-se para além da expressão de sentimentos ou da figuração de ambientes ao imaginar cenas visuais ou narrativas a partir do agrupamento intencional de sons. Esta música atonal colocava-me perante a consumação da abstracção pura e como considerava a música a mais abstracta de todas as artes, reflectia-se nessa consumação a aspiração máxima da música, ser ela-mesma até às últimas consequências. Passei a considerar que não era possível à música, fora da atonalidade, ser mais musical. Quando descobri a música de Webern este conceito ainda se tornou para mim mais claro e só ao aprofundar, muito mais tarde, a audição da música de Bach é que voltei a experimentar esta pureza musical absoluta.
A velatura do tempo não se apoderou, a meu ver, tanto da música de Webern como da de Schönberg, dado que Webern encontrou respostas mais adequadas à aspiração da atonalidade, isto é, à pureza da abstracção musical. O segredo reside na percepção do tempo musical que em Schönberg parece ainda reminiscente do romantismo tardio, com construções de clímaxes sucessivos, alternando a marcação lenta do tempo com dinâmicas e ritmos tumultuosos, diria mesmo, nervosos, precipitados. Ouça-se Pelléas et Mélisande, por exemplo – pressente-se constantemente uma angústia latente que atravessa a sucessão dos acontecimentos musicais. Por sua vez, é em Webern, na Sinfonia Op.21 (de 1928), no Concerto para Nove Instrumentos Op.24 (de 1934) e nas Variações para Orquestra Op.30 (de 1940), que encontro os exemplos que representam superiormente a consumação da adequação do tempo musical à ideia de abstracção pura instaurada pela atonalidade. Tratam-se, à semelhança de todas as criações musicais do compositor (exceptuando talvez Op.1 e Op.2) de meticulosas miniaturas que possuem uma aura de secretismo e um carácter reservado que remete para pequenas salas de concerto e poucos ouvintes. Assenta bem a esta música que busca nos meios mínimos a essência da grande expressão musical, este modo de dar-se a poucos, porque tratou-se no tempo de Webern de uma muito preciosa descoberta e a sua estranheza de coisa delicada e muitíssimo nova talvez a tornasse frágil se exposta a multidões.
Em Sinfonia Op. 21 esta ideia de condensação da matéria musical parece ir já ao encontro da ideia de “objectos musicais”, pequenos grupos de notas que, à maneira do cânone, desenvolvem o corpo da composição através de repetições pelos diversos naipes e instrumentos. Torna-se difícil reconhecer uma melodia. No primeiro dos dois movimentos da composição estes “objectos musicais” pairam, num longo hesitar, no espaço e no tempo, instaurando uma calma que se adensa e torna perturbante à medida que as sucessivas camadas de sons se sobrepõem. Este conceito amplo atravessa todo o movimento - aqueles objectos definem uma massa de som com determinadas características, um “organismo” global, que vive no seu tempo de duração. O segundo movimento, mais fragmentado, consiste em sete variações canónicas à volta de um tema inicial, que se desenvolve até um centro a partir do quel se estabelece o exacto espelho do percurso musical efectuado. Perdendo a espantosa fluidez do primeiro andamento, caracteriza-se, no entanto, pela definição de sete miniaturas perfeitas dentro da miniatura maior que são o movimento e a própria composição.
O Concerto para Nove Instrumentos Op.24 é composto por três variações à volta do mesmo motivo de três notas. Perseguindo ainda a ideia de condensação das ideias musicais é também um exercício de possibilidade, à maneira de outras variações famosas na história da música, como as Goldberg ou as Diabelli, embora sem a complexidade psicológica e dramática que se espraia na extensão temporal e no número de variações incluídas nestas composições de Bach e Beethoven respectivamente. Webern oferece-nos de novo miniaturas. As sequências de notas apresentam-se à imagem de uma corrida curta de estafetas com passagem do testemunho entre os diversos instrumentos ou conjunto de instrumentos, técnica de composição por vezes chamada de Klangfarbenmelodie. Primeiro movimento – grupos quebrados de notas, vigorosos; segundo movimento – lento e calmo, introspectivo, as notas estendem-se no tempo; terceiro movimento - sincopado e muito curto a lembrar vagamente uma marcha lenta. O fundo quase contínuo dos acordes pontuados do piano constituem os pilares que sustentam o deambular errante dos restantes instrumentos ao longo de toda a composição.
Das Variações para Orquestra Op.30 sobressaem desde logo duas características invulgares: a inexistência de pausas entre tema e as seis variações que constituem a composição e o final abrupto, aberto, que se limita ao abandono do ouvinte no silêncio que remata uma curta, forte e fragmentada cadência. Esta composição é normalmente apontada como o exemplo mais perfeito da economia formal de Webern. O tema é um grupo de quatro notas (dois meios-tons separados por uma terceira menor) sendo cada nota de duração menor que a precedente. Particularmente estimulante para o ouvinte desta curta composição é, tal como no Op. 24, deixar-se envolver pelo Klangfarbenmelodie, movimento de linhas melódicas no espaço da orquestra, frases que rodam de instrumento para instrumento ou de grupos de instrumentos para grupos de instrumentos.

2007/03/25

Imaginário do Artista - 8 - Três Palavras Obscuras
































ACÇÃO, em arte, é o movimento criativo organizador de elementos que são parte integrante de um MEIO, fixando-os formalmente num SUPORTE. O modo de organizar aqueles elementos pode, por vezes, em vez de em forma estável, manifestar-se numa forma instável. No entanto, essa instabilidade respeitará sempre determinados parâmetros, sendo esse seu particular modo de se manifestar a razão de ser da ACÇÃO. Pode dizer-se que a acção define o “género artístico”.
MEIO, em arte, é o conjunto de elementos que, ao concretizar-se em organização que origina forma, estabelece a comunicação entre o artista e o fruidor ou, noutro plano, é aquilo que possibilita a existência de ACÇÃO sobre o SUPORTE.
SUPORTE, em arte, é o lugar, superfície ou matéria de sustentação no qual se inscreve a ACÇÃO que origina a obra de arte.

A obra de arte, em função destas definições sumárias, integra em si-mesma ACÇÃO, MEIO e SUPORTE, bem como artista e fruidor, nem sempre sendo lícita a distinção e identificação destes termos em presença da obra.

Dizemos: pintar é a acção; as tintas coloridas e os pincéis, espátulas, etc. são o meio; a tela ou a tábua são o suporte.
Dizemos: esculpir (lavrar) é a acção; o cinzel é o meio; a pedra ou a madeira são o suporte.
Dizemos: o projecto de arquitectura (vocacionado para a construção) é a acção; os vazios, os cheios e a sua natureza são o meio; o meio ambiente é o suporte.
Dizemos: compor é a acção; os sons e os silêncios são o meio; o tempo e o espaço são o suporte.
Dizemos: fotografar (como termo lato que inclui também a pós produção da imagem) é a acção; a incidência da luz nas coisas e seres é o meio; o filme, o papel ou o ecrã são o suporte.
Dizemos: dançar é a acção; o corpo humano em movimento é o meio; o espaço e o tempo são o suporte.
Dizemos: performance é a acção; o corpo humano e objectos de natureza diversa são o meio; o espaço e o tempo são o suporte.
Dizemos: body art é a acção; a própria arte, os seus dogmas transfigurados simbolicamente nos objectos que inscrevem, são o meio; o corpo humano é o suporte.
Dizemos: escrever é a acção; as palavras, frases, parágrafos, etc., são o meio; qual será efectivamente o suporte da escrita? – embora nele se apoie a caneta, o papel não será seguramente; mais correcta é a afirmação de que é a língua o suporte da escrita; em última instância é o cérebro humano.

Beuys afirmou: «pensar é esculpir», isto é, pensar (através da arte) é a acção, a própria arte é o meio e o cérebro humano é o suporte cuja morfologia (mesmo que a micro escala) efectivamente muda.
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Ilustração: Nuno de Matos Duarte, “autoR”, 2004, Tinta-da-china s/ 30 folhas de papel A4, 178,2 x 105 cm

Imaginário do Artista - 7 - O quotidiano como matéria de artes visuais
































Emmet Gowin
“Edith”, Danville, Virgínia, 1970
“Family”, Danville, Virgínia, 1970





































Harry Callahan
“Eleanor and Barbara”, Chicago, 1953
“Eleanor”, Chicago, 1953



Há ideias incorpóreas de arte que vagueiam anos a fio pelos fluidos turvos do nosso espírito. Imateriais permanecem, ou porque não encontramos a chave para as transmutar, agregando os seus aspectos dispersos em forma consciente para o “mundo real”, ou simplesmente porque nunca procurámos/construímos essa chave e nos mantivemos atávicos sem o querer-alavanca que as fizesse emergir do lugar incerto onde habitam. Nestas condições encontro a ideia de fazer arte partindo do que me é mais próximo, ideia que, confesso, sempre me agradou. Se ao falar de matéria falar de coisa física, com massa, afirmo que usei radicalmente o que encontrava “mais à mão” para fazer arte (umas vezes com resultados felizes mas quase sempre de forma desastrosa). Se, ao invés, ao falar de matéria falar do campo das ideias, da “temática”, apenas esbocei pouco convictamente umas coisas fracas e tímidas, até porque o empenho, por medo da seriedade destes assuntos, foi sempre pouco. Os “tijolos” das obras serem aspectos íntimos do meu quotidiano é uma ideia que me fascina desde que sei da existência de Picasso, autor de notabilíssimas obras, ao longo de décadas, nas quais um número reduzido de elementos do seu dia-a-dia, associados, constituíram um meio inesgotável para fazer arte: uma mulher (modelo mas mulher que partilha a habitação com o artista), um espaço (a casa mas, sobretudo, o atelier do artista), o artista e, finalmente, a arena da arte, lugar onde tudo isto é posto em confronto e lugar que se confronta consigo mesmo enquanto lugar que se auto define (os materiais da pintura, telas, papeis, tintas, História da Arte).
Outro meio que tanto se presta à arte cuja fonte de poesia jorra directamente dos espaços e pessoas que nos são familiares, é o meio fotográfico. Tomando o quotidiano como ponto de partida a fotografia, ao dar-nos a ver de novo o que os nossos olhos viram mas de imediato perderam, confere à sensação visual efémera uma perenidade selecta que dificilmente se livra de vacilar na linha de fronteira entre o olhar que reporta e o olhar que transcende.


DOIS FOTÓGRAFOS – EMMET GOWIN E HARRY CALLAHAN

No livro “Emmet Gowin: Photographs” o autor refere-se às fotografias que realizou como «um dever natural que honre aqueles que ama». Desde logo ficamos a saber que o seu compromisso não é com o “mundo da arte”, a sua arte é antes uma dádiva aos seus entes queridos. Diz que as fotografias presentes no livro são parte do seu dia-a-dia e não resultam de projectos ou encomendas. Elogia os snapshots e as fotografias dos álbuns de família como sendo das fontes de imagens mais ricas que conhece. É evidente que a sua arte vai além da recordação de família essa demanda reside no penetrar, através da arte, fundo nas noções de identidade e de sentimento de pertença (aos lugares e aos entes queridos). Mostrando universos íntimos, logo quando da escolha do enquadramento e composição da imagem antes da fixar, esta vai adquirindo peso simbólico que na imagem se manifesta com forte emoção, entrega apaixonada e espanto perante a vida. Na reflexão sobre si mesmo e sobre a sua condição existencial, o artista extravasa para aspectos essenciais à existência humana, imprimindo à sua experiência pessoal, através da arte, contornos universais. Para além destas evidências conclui-se que o simbolismo destas fotografias “familiares” de Gowin resulta também, em parte, da técnica fotográfica usada. Não que a técnica por si só tenha algum valor artístico, porque só quando surge perante os nossos olhos tão intrincada nas formas e nos conteúdos que seria impossível imaginarmos a obra que observamos configurada de outra maneira, é que se torna digna de registo e admiração. No caso destas fotografias trata-se do efeito de distorção circular exagerado que uma lente Angulon para câmara de pequeno formato faz quando associada a uma câmara Eastman View 8x10. Li algures a opinião de alguém (não sei quem) que classificava a estética destas fotografias de “gótica”. Não é essa a palavra que me ocorre. Ocorre-me sim a palavra “expressionista”.

O processo de trabalho usado por Harry Callahan para a conformação da sua arte era, aparentemente, simples e rotineiro: sair de casa quase todos os dias de manhã com equipamento fotográfico, caminhar pela cidade e fotografar. À tarde fazia diversas provas dos que considerava serem os melhores negativos. Deste trabalho sistemático seleccionava pouquíssimas imagens finais. Um método o qual, simplificando, caracterizaria como “coleccionismo e escolha”. Em arte significará o mesmo que procura persistente, análise detalhada e profunda reflexão. As fotografias de Callahan possuem um forte sentido de volume e composição, tomando linha, luz e sombra o protagonismo. Nas imagens mais conhecidas do autor podemos ver a sua mulher e/ou a sua filha, Eleanor e Barbara, em espaços interiores e exteriores, urbanos ou naturais. Ocupe a maioria do quadro ou apresente-se longínqua é a figura humana que cativa de imediato o olhar porque surge sempre do mistério da luz e da sombra. O jogo que presenciamos quando olhamos para estas fotgrafias é bastante complexo. Por um lado, fazendo as pessoas e os lugares parte do quotidiano do artista, em momento algum podemos afirmar que se tratam de retratos – não são representações da personalidade ou dos traços fisionómico psicológicos das pessoas representadas – nem tão-pouco de descrições espaciais de um lugar, do captar do seu genius loci (embora em outras fotografias de Callahan o genius loci esteja bastante presente). No que à representação espacial diz respeito verifica-se inclusive que estas imagens estão longe de cair na tentação que os dedos dos fotógrafos têm habitualmente por pressionar o botão de disparo da câmara perante motivos de imaginários exóticos ou pitorescos. Callahan, ao tomar como matéria da sua arte espaços e pessoas que definiam o seu quotidiano, não procurou mostrar como são, quem são, ou o que são. A sua poética tende para a abstracção, embora atendendo a quão subtil pode ser a natureza dos símbolos. Por outro lado afirmaria que, sabendo que o autor partiu de um persistente trabalho de recolha, o momento chave da análise dessas imagens terá sido o da descoberta dos signos ou dos significados latentes. Excluindo algumas imagens onde é mais evidente uma encenação criada antes do disparo para obter um determinado efeito, perante outras aparentemente mais espontâneas apetece-me exclamar «E, subitamente, a arte perante os meus olhos!». Terá o autor experimentado uma sensação semelhante ao ver algumas das imagens que ele próprio recolheu? É uma pergunta pouco relevante, pois as imagens aí estão como são e como as vejo, mas provavelmente a resposta é sim. Admitamos então que Callahan, de facto, descobria a arte e a poesia do modo aqui descrito: não penso que a maioria destas imagens tenha sido trabalhada a priori de forma fria e meticulosa, nem tão pouco que tenha sido obtida durante qualquer espécie de devaneio ou arrebatamento sentimental. Penso sim que resultaram de uma atitude expectante, atenta, embrenhada serenamente na crença de que o ambiente perante os próprios olhos é propício a que as coisas aconteçam, não sabendo bem como antes de acontecerem. É possível interpretar estas imagens tentando perscrutar símbolos precisos que poderiam corresponder a factos ou sentimentos relativos à relação do autor com Eleanor e Barbara. Naturalmente Callahan usou esses meios, reflectindo sobre si próprio, transpondo posteriormente a reflexão para os ambientes e pessoas presentes nas fotografias. É assim que se constrói obra. Mas acima de tudo há aqui o fazer arte colocando em confronto na arena da técnica fotográfica seres humanos, espaços interiores e exteriores, objectos, luz e sombra, conseguindo revelar ao relacionar as ínfimas percepções., mais do que a «boa fotografia» a poesia fundada na subtileza e na serenidade.

Curiosamente, ao fazer a minha pequena pesquisa para a elaboração deste texto e já durante a sua redacção, tomei conhecimento de que Gowin foi aluno de Callahan na Rhode Island School of Design, E.U.A. A associação que inicialmente fiz entre os dois artistas-fotógrafos deveu-se apenas à correspondência de dois nomes a dois conjuntos de imagens que espelham resultados diferentes, até mesmo opostos, no tomar da mesma matéria para fazer arte, neste caso, o quotidiano. Não deixa de ser interessante constatar esta outra proximidade entre ambos.
Ter-se-á tornado evidente aos leitores dos meus textos (que os deve haver apesar de em reduzido número) que ao escrever sobre arte a caneta me foge para uma abordagem bastante restrita sobre o que considero arte e que, à partida, rejeita muito daquilo a que hoje se chama “produção”, “mercado” ou, aplicado ao comércio de derivados da música e do cinema, “indústria”. Só muito raramente percepciono arte nestes meios e é esta pura sinceridade, com a qual tento expor por palavras escritas o que sinto e o que penso sobre estes assuntos, que procuro também encontrar nas obras dos artistas. Acredito profundamente que a única resposta que estes podem dar em contraponto à confusão que o comércio de objectos e a indústria do entretenimento estabelecem em redor da arte é serem genuínos e corajosos na manifestação da sua visão do mundo. Os dois artistas-fotógrafos cujas obras (parte delas) eu tentei aqui resumidamente interpretar à luz da minha sensibilidade e modo de racionalizar as coisas, tomaram como matéria de arte a intimidade de factos que aconteceram (provocados ou não) perante o seu olhar. Julgo que se tratam de dois bons exemplos, complementares, da temática deste texto posta em prática – partindo com meios simples do mesmo tipo de matéria que pulsa, viva, chegam a lugares muito diferentes na forma, pois diferentes são os homens.

Imaginário do Artista - 6 -Veneza















Este texto falará de Veneza, mas também de quão difícil é a escrita sobre cidades. Ao dizer o nome de uma cidade sou assaltado por um rol de imagens (muitas pitorescas e de bilhete-postal). Também por outros lugares-comuns. Sei que o que escrevi dificilmente acrescentará alguma coisa à ideia de cidade que os leitores têm; à cidade propriamente dita nada acrescentará seguramente. Descrever uma cidade como Veneza, ou qualquer outra que seja destino de milhares ou milhões de turistas anualmente é, nos dias que correm e com a proliferação de imagens que dá resposta a essa voracidade, tarefa mais do que ingrata, absurda. Mas Veneza é, juntamente com uma meia dúzia de outras cidades, peça importante do meu imaginário, influenciou bastante a minha percepção do mundo (alterou-a mesmo). Não virei as costas às dificuldades da escrita e o texto aqui se apresenta, de viés, contornando as imagens de bilhete-postal que se me impuseram mas afirmando, no entanto, que o lugar-comum constitui cerca de noventa por cento do que me faz gostar de Veneza. Não adianta nada repetir o que foi já dito ou mostrar o que foi já mostrado, e procurei aflorar, dentro do possível, os restantes dez por cento. Para dar, em algumas passagens, o tom ao texto, vali-me da poesia, pois de outra forma não poderia dizer o que para dizer tenho.

É genuíno o meu gosto por Veneza e se pudesse recuar no tempo até ao momento em que me foi dada a ideia da existência de uma cidade com o nome de Veneza, diria que logo fiquei a gostar dela. «Existe uma cidade chamada Veneza» e de imediato emergem destas sílabas ruas imaginárias de antiguidade incomensurável libertando cheiros, cores e sons desconhecidos e longínquos. Liberta-se um sereno mistério da palavra Veneza – V e Z sobressaem numa palavra de vogais fechadas, transmitindo uma noção de exotismo sofisticado que se deve talvez ao facto de V, X e Z serem as últimas consoantes do alfabeto e as últimas que conhecemos quando aprendemos a ler. Saber que existe uma cidade chamada Veneza (onde há palácios que surgem em calmas pracetas às quais se chega por vielas silenciosas, estreitas e labirínticas e por pequenas pontes sobre canais de onde emergem as construções) sem nunca lá ir, seria sempre experimentar o sonho de um mundo encantado, desconhecido e vago, próximo do experimentado pelos leitores do livro que Marco Pólo ditou a Rustichello de Pisa no cárcere de Génova em 1298. Ou mais semelhante ainda às cidades fantásticas que Italo Calvino colocou na boca do mesmo Marco Pólo residente da corte de Cublai Cã, no livro “As Cidades Invisíveis”.
Estranha nisto de gostar de coisas (neste caso de uma cidade) é a ideia de colisão entre características dos objectos de que gostamos com algo que em nós existe. Deverá ocorrer uma colisão desse género, caso contrário o gosto não seria mais que um aleatório capricho que pouco ou nada teria a ver com o objecto do gosto, mas antes e apenas com a psicologia daquele que gosta (o gosto viria suprimir uma necessidade psicológica no prazer da ideia de gostar de alguma coisa, fosse que coisa fosse). Se o gosto existe não apenas porque necessitamos de gostar de coisas, mas porque há uma colisão entre elementos do objecto do gosto e elementos preexistentes naquele que gosta, então existe a possibilidade de aprofundar as causas desse impacto inicial, dessa colisão, e descrever o que o leva a gostar daquela coisa. Uma vez identificados os elementos em “colisão”, ultrapassamos o “primarismo” do gosto e iniciamos a experiência estética, mais rica, mais complexa e também muito mais gratificante.
A descrição do todo que constitui a cidade é tarefa aceite à partida como impossível dada a complexidade das relações entre os elementos que a constituem. Neste aspecto a cidade difere da obra de arte: desta dizemos que aspira a ser compreendida na sua totalidade (embora estejamos conscientes dessa impossibilidade), acreditando que os seus elementos são finitos; da cidade dizemos que tem uma infinidade de elementos e acreditamos de igual modo nela. Da obra de arte esperamos, no máximo, “meia dúzia” de autores; da cidade esperamos um rol interminável de pequenas e grandes contribuições, pois todo e qualquer dos seus habitantes partilha, por assim dizer, dela a autoria. Em vez de autores, talvez possamos dizer mais correctamente que haverá, ao longo dos tempos, actores da cidade. O “jogo” estético que a obra de arte nos propõe residirá talvez na tentativa de descodificar a sua totalidade como obra e de imaginarmos a possibilidade de atingirmos esse objectivo. Da cidade sabemos que, para além de infinita, a sua condição é ser mutável e que o seu “ser-cidade” se definirá, talvez, através de um carácter próprio que persiste apesar da constante mudança. Gostar de uma cidade é, por isso, gostar da ideia que fazemos dela, ou seja, gostar do seu carácter. Transcender o gosto que por ela nutrimos e mergulhar na experiência estética torna-se deste modo possível, porque nos debruçamos não sobre a totalidade do objecto (sabemos que a realidade da cidade se prolonga indefinidamente para além do nosso tempo de vida e que a enormidade dos elementos que a constituem é impossível de apreender por um único ser humano) mas antes sobre o esquema mental que estrutura uma percepção ultra complexa.
Das coisas de Veneza que comigo colidiram, ainda antes de lá ter estado, muito poderia dizer falando por muito tempo – falaria das Venezas que me foram trazidas pela literatura, música, pintura, cinema, fotografia ou banda-desenhada, por artistas como Thomas Mann, Vivaldi, Canaletto, Turner, Visconti, Hugo Pratt ou Carlo Scarpa. Nos mundos da arte como no mundo “real” Veneza é inesgotável. Mas já lá estive e digo por isso de Veneza que é a cidade prodigiosa, ultra adjectivada, onde tão bem viveria pois viveria num permanente arrebatamento poético. Depois de lá ter estado por diversas ocasiões afirmo que o que colide comigo é o facto de Veneza ser uma cidade onírica. O absurdo e a irrealidade que caracterizam os sonhos são realidade quando vagueamos pelas calle, salizzada, fondamenta, ruga, ramo, campo, sottoportego e rio terra de Veneza. Há aspectos curiosíssimos sobre a organização verbal dos espaços de Veneza, que são de uma poética tocante. Há apenas uma piazza, S. Marco. As restantes são chamadas de campo. Fondamenta é uma rua ao longo de um canal. Ramo é uma rua lateral que liga a duas ruas mais largas e, sendo estas canais, o ramo torna-se um beco. Sottoportego é uma viela com passagem em túnel por baixo de um edifício. Rio terra é um antigo canal que foi coberto de terra. Aos palácios dá-se a denominação de Ca’, que é a abreviatura veneziana de casa (salvo algumas excepções como o Palazzo Ducale). A maravilha extrema que Veneza é, e que até na classificação dos espaços se manifesta, emergiu do lodo da Laguna e nele lentamente imerge. O líquido espesso e escuro que, em vez de fluir, pesa sobre os canais de Veneza, esconde um surdo abismo que acompanha o transeunte nas deambulações pelas suas vielas labirínticas. Os hipnóticos reflexos da luz que no líquido incide insinuam-no ao olhar, e este por vezes bloqueia perante aquele apelo turvo. Líquido fétido, mórbido, metáfora terrível das profundezas submersas. Na sua presença intuímos o nosso próprio fim: pensamos que um dia haveremos de morrer e, tal como Veneza, certamente morreremos.
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Fotografia: Nuno de Matos Duarte, Veneza, Novembro de 1999